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Do Tempo das Descobertas: "Sem Título"

Domingo, 28.02.10

 

Do Jardim de Micróbios, este post do John, Sem Título. Gosto muito das suas análises literárias e cinematográficas, sempre ousadas e inovadoras. Com personagens complexas, sombrias e inquietantes. Desta vez é o Dracula. Nem mais. Nunca me aventurei nestas leituras sobre as criaturas da noite, mas ainda vi o Dracula do Francis Ford Coppola com um magnífico Gary Oldman talhadinho para o papel. Já conta, não acham?

 

 

Sem Título

 

Invejo as pessoas - os escritores, se quiserem - que têm a capacidade de escrever contos. Contos no sentido de shortstories, uma narrativa de poucas páginas, coerente, com princípio, meio e fim, e capaz de de agarrar o leitor. Eu, por experiência, sei que não consigo: tentei várias vezes, mas mas ficções que crio tendem a crescer bastante, a expandir-se para além dos limites que lhes atribuo. Não sei ser sucinto, o que também é capaz de explicar o meu problema com a escrita de títulos. No que a contos diz respeito, o melhor que consegui foi um conto, escrito há oito anos, com nove páginas (com espaçamento de 1,5 linhas), que fazendo parte de uma história maior, funciona bem sozinho. Mas foi isto. Sobraram alguns proto-contos inacabados que continuam na gaveta, passe a expressão (hoje em dia nenhum escritor tem "gaveta" ou "baú", não no sentido de Tolkien, por exemplo; uma pasta no ambiente de trabalho do portátil serve perfeitamente), e os vários projectos de coisas maiores que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que jamais serão concluídos. Não é da minha natureza acabar o que quer que seja; e há dias em que as sinopses que escrevo (sou muito bom a fazer sinopses das minhas próprias histórias) parecem-me ser suficientes.

Isto ocorreu-me quando ontem li um conto muito pequeno e muito simples de Bram Stoker intitulado Dracula's Guest, que me maravilhou quase tanto como a obra-prima do velho Stoker, Dracula, cuja leitura também concluí ontem. Ao conto primeiro: Dracula's Guest é uma narrativa tão curta que é difícil perceber como pode ser tão boa. As descrições, enfim, são um assombro, revelando a enorme capacidade de Stoker para, e perdoem-me o recurso ao inglês, establish mood (mood, como se sabe, é uma palavra intraduzível) e conduzir o leitor a um clímax improvável e francamente arrepiante. E são deixadas por resolver pontas soltas em quantidade suficiente para o leitor se entreter.

Sobre Dracula: lê-se o primeiro capítulo e percebe-se o motivo pelo qual esta obra, mais do que ser considerada um clássico da literatura fantástica/gótica/de terror, é um clássico da literatura em geral. O leque de personagens é fantástico - de Jonathan Harker a John Seward, de Mina Murray a Abraham Van Helsing, de Renfield ao próprio Conde Drácula - e a estrutura narrativa é do melhor que já encontrei em livro. A narrativa é epistolar, composta por passagens dos diários e por memorandos das várias personagens, juntamente com telegramas ou alguns artigos de jornal. Parece aborrecido, mas funciona surpreendentemente bem, dado à leitura um ritmo único, que contribui em larga medida para a atmosfera sombria que Stoker concebeu (tal como as suas vivas descrições). Há passagens nas quais é impossível não sentir um arrepio, ou pelo menos uma vaga sensação de desconforto - mas é igualmente impossível colocar o livro de lado. Exemplo disso é a descoberta, por Harker, das saídas nocturnas de Drácula; ou as passagens que dão conta do delírio sonâmbulo de Lucy (para não mencionar passagens que denunciem demasiado o curso da história).

Dracula é leitura que recomendo: numa época em que os vampiros são tão maltratados, vale muito a pena ir aos clássicos - talvez ao clássico maior - e compreender o motivo pelo qual estas criaturas da noite inspiraram tanta literatura (e cinema) ao longo das décadas. E o motivo pelo qual continuarão a fazer parte dos mais tradicionais cânones dos géneros fantásticos, quando a actual febre adolescente passar por fim.

john  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:46

A Música no Cinema: Andrew Lloyd Webber

Sábado, 27.02.10

 

Das composições de Andrew Lloyd Webber, a minha preferida ainda é Jesus Christ Superstar.

Não se zanguem os fãs das suas peças musicais, não me gritem aos ouvidos: e os Cats?, a Evita?, O Fantasma da Ópera?

Cada um gosta mais do que sente, do que faz ressonância nos seus neurónios e nos nervos restantes, na corrente sanguínea, nos pulmões, nos músculos, nas articulações...

 

É esse arrepio e essa comoção que eu sinto ao ouvir as composições de Jesus Christ Superstar, mas têm de ser as do filme. Daquela aventura no deserto.

Um autocarro chega, vários jovens de jeans saem e vestem a pele das personagens. Cristo é a mais trágica. E Judas. E os apóstolos. E Maria Madalena. E os chefes da comunidade judaica. E Herodes. E Pilatos.

Todos se perfilam no seu espaço-tempo próprio. E a tragédia começa. Começa de forma poética, as vozes sonham. Cristo é ouvido, pensa ele. Na verdade, nunca saberemos quem realmente o ouviu. Quem realmente o percebeu. Essa eterna solidão está nesta peça musical. O percurso de fim trágico já se adivinha.

A linguagem do poder. A indiferença. O oportunismo. A alienação da multidão que se apressa a seguir um mestre para logo a seguir o negar. A multidão que escolhe Barrabás. E o fim.

 

Reparem como a música acompanha as diversas tonalidades da peça, das personagens, da sua tragédia pessoal ou da sua alienação intrínseca.

A voz de Cristo no jardim das oliveiras, o seu desespero solitário, a rejeitar o papel trágico, a morte, o fim do sonho.

Lloyd Webber consegue aqui traduzir em música todas as emoções e sentimentos que esta tragédia envolve: a esperança, o amor, o medo, o desprezo, a indiferença, a traição, a solidão, o desespero, o arrependimento. Está lá tudo, nesta peça musical. E isso é verdadeiramente notável.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:20

A cultura da amabilidade

Quarta-feira, 24.02.10

 

Foi na cultura da amabilidade que eu pensei quando ouvi ontem, passados tantos anos, o professor Adriano Vaz Serra. Foi na Antena 1, à hora de almoço, e absolutamente por acaso.

Também isto me lembra a série Life on Mars, pois ao ouvir o professor viajei no tempo e às aulas da faculdade de Medicina de Coimbra. 29 anos já... Fomos a primeira turma do curso de Psicologia de Coimbra (1976/81). É certo que já o vi e ouvi em Congressos  e tenho lido artigos seus, mas não é a mesma coisa.

 

A voz, a entoação, a amabilidade. Como se estivesse a dar mais uma aula. Nas aulas também era assim, pelo menos na nossa turma: às vezes questionava-nos e às vezes ironizava discretamente. Trouxe-nos vídeos de casos que acompanhou e levou-nos ao cinema.  A mim sempre me pareceu um pouco british, no estilo e na forma de expor e comunicar, mas sem a afectação inglesa nem o snobismo. No final do curso, esteve presente no almoço com alguns dos outros professores, e assinou amavelmente as nossas fitas. Guardo ainda essas fitas em tom laranja (coincidências poéticas) no baú das memórias mais gratas. 

 

Agora ficamos a saber que abandonou as aulas, mas que vai continuar a dedicar-se à sua paixão de sempre: a psiquiatria. Tem sido convidado para diversos congressos, um será em Abril em Barcelos, sobre Stress, e outro depois em Outubro, mas não percebi onde.

 

Revelou algumas memórias de um percurso que se iniciou em 64, o que o levou a escolher essa especialidade, referiu professores que o marcaram, livros que leu, e experiências como a observação dos doentes internados. Mostrou os incríveis avanços em psiquiatria, a nível de técnicas e recursos terapêuticos. Que não tem nada a ver com esses tempos iniciais. Aliás, a descrição desses tratamentos lembrou-me precisamente um dos filmes que fomos ver na altura, A Laranja Mecânica, os famosos electro-choques.

E, felizmente segundo o professor, também mudou a perspectiva de doença mental, que já não tem aquele estigma de loucura.

 

Finalmente falou-nos do stress, a que se tem dedicado há alguns anos já, tendo elaborado uma escala precisa, fiável, que consta de 23 questões e detecta situações de risco.

Alertou ainda para as consequências graves do stress prolongado, a nível físico e psicológico.

Muitos órgãos, a começar pelo coração, começam a descompensar.

A nível psicológico, os principais efeitos revelam-se em ansiedade e ataques de pânico, fobia social, estados depressivos.

 

Nestas viagens no tempo esta foi uma das mais gratas memórias. Registei para sempre as suas aulas e uma delas, particularmente, em que nos provou de forma inequívoca que o que importa não é o que nos acontece, por mais traumático que seja, mas a forma como aprendemos a lidar com as situações. A sua perspectiva é a da corrente comportamental. É nos comportamentos que se pode intervir.

Embora nos tenha dito ontem, na Antena 1, que o trabalho do psiquiatra é como o do detective, tentar perceber o significado de determinado comportamento, a razão, o motivo, o que está por trás. É mais fácil detectar o que o despoleta, mas o significado oculto, até do próprio, é muito mais difícil e leva o seu tempo, mas é isso que o fascina.

 

Sim, é a sua cultura da amabilidade que me ficou. Foi um modelo para muitos jovens estudantes. E agora pode passar essa mensagem a outros níveis, ou noutros locais, mesmo na comunidade mais alargada e não necessariamente confinada à comunidade científica.

A cultura da amabilidade, nunca como agora tão necessária. No meio de agressividades, de grupos entrincheirados, vermos pessoas que cultivam a amabilidade como forma de comunicação, é uma lufada de ar fresco.

 

 

Também aqui: A cultura da amabilidade.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:40

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42

Do Tempo das Descobertas: uma viagem

Domingo, 21.02.10

 

Do Vontade Indómita, "a viagem que valeu apenas o que valeu", "no Inverno do [seu] descontentamento". "Dos slides que voltaram [consigo] escolheram-se dez. Expostos agora em grande formato no Museu do Oriente até dia 4 de Abril."

 

 

"Estávamos em 2005, no Inverno do meu descontentamento e a meio do Verão Indiano. Aterrei em Mumbai de madrugada e sem nada marcado apanhei um rick-shaw para me levar para algum ponto da cidade afastado do centro. Largou-me trinta minutos depois à porta de uma pensão. Os passeios estavam cobertos de homens e mulheres a dormir, enroscados uns sobre os outros; havia cães, também. O meu quarto tinha como janela uma gelosia quebrada e dela percebia o silêncio da rua e da noite. Adormeci enrolado num lençol como se fosse uma mortalha egípcia, esquecendo-me assim dos mosquitos e das ratazanas que se faziam sentir. Quando acordei, com a azáfama urbana, defini o mais próximo de um programa para os dias seguintes. Fotografar Darukhana — os homens e os barcos — e seguir depois para noroeste em direcção ao Paquistão, numa viagem de 16 horas de comboio até Ahmadabad, no estado do Gujurat. Dali logo veria o que fazer. Instalei-me num hotel muçulmano com ventoinha e calcorreei a cidade de uma ponta à outra. Os dias passaram e as fotografias começavam a contar uma história. Uma vez em Ahmadabad, segui de autocarro para Bhavnagar, povoação distante com sabor a pó. Estava a menos de 50 quilómetros de um dos meus destinos principais: os estaleiros de shipbreaking. Os dias seguintes foram passados entre lentas manobras burocráticas para conseguir uma autorização para os visitar. Fechavam-se portas; mais do que se abriam. Mudei-me para outra povoação, mais a sul. Quando adoeci, estava alojado na única pensão da terriola, misto de hotel e bordel. A noite foi de um horror solitário, entre vómitos e velhos fantasmas, acompanhado unicamente com o barulho das putas e dos clientes no corredor. Quarenta horas depois estava numa cama do Brittish Hospital, em Goa, chegado mais morto que vivo. Por lá fiquei os oito dias seguintes, a soro e delírios, até à lenta recuperação da tão esperada independência. Depois, nas praias do sul, convalesci. Ao ponto de sentir-me novamente capaz de viajar e voar. Para o Bangladesh. Em Dhaka tinha um amigo, e esse amigo, sendo muçulmano, fez com que todos os seus amigos fossem meus amigos também. Falou-me da sua cultura e anos mais tarde convidou-me para o casamento. Não pude ir, mas nesses dias fui pela costa, atravessando um país de água, outra vez à procura dos barcos desossados e das suas carcaças que marcam o território. Fotografei-os nas proximidades de Chittagong. Ao segundo dia o grupo terrorista Jama'atul Mujahideen Bangladesh fez explodir bombas pela cidade. Regressei à Índia e de lá para cá, pensando agora que a viagem valeu apenas o que valeu. Dos slides que voltaram comigo, escolheram-se dez. Expostos agora em grande formato no Museu do Oriente até dia 4 de Abril. A inauguração é hoje, dia 19 às 18.30h.  "

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:42

Pequenas alegrias: revisitar os anos 70

Sábado, 20.02.10

 

Sendo um exemplar de uma adolescente na década de 70, gostei muito da irreverência de David Bowie, na personagem andrógina provocante e no som original. E gostei de ver que continuou a compor como se o filão nunca se esgotasse, sempre inovador. David Bowie fez da sedução o seu maior trunfo, mais parecia um marciano que tivesse acabado de aterrar no palco. E as fotografias das capas dos discos eram simplesmente fabulosas.

Hoje descobri, numas gravações antigas, uma canção que não conhecia e que fala do vento... let me fly away with you... my love is like the wind... we are like creatures of the wind... fala desse paralelismo do amor e do vento nas árvores... a voz imita o som do vento... a canção é lindíssima, não sei explicar melhor.

 

Revisitei também o som de John Lennon, já pós-Beatles. John Lennon tinha esse sentido artístico-filosófico-político, uma autêntica obsessão, fez do seu activismo uma forma de vida, uma constante performance, essa dimensão da revolta de um Power to the People ou essa utopia poética do Imagine.

É das personagens mais fascinantes dos anos 70, porque os acompanha de muito perto, é o seu rosto, com uma mensagem sempre irreverente. Também não lhes sobreviverá, a aventura que foi a sua vida termina precisamente no último ano da década. 

 

Os anos 70, já o disse aqui, foram de certo modo paradoxais, porque a par de uma sociedade ainda muito fechada e convencional, surgia outra camada, sobretudo juvenil e ligada à arte, muito irreverente e excessiva, muitos deles universitários e activistas, em que a liberdade era pura e simplesmente a ausência de limites.

Talvez por isso mesmo, por essa ausência de fronteiras, foi uma época tão fascinante. E, também por isso, decadente. Mas ainda assim, fascinante.

 

E talvez por isso mesmo vemos hoje um revivalismo nalgumas séries televisivas, como Life on Mars, e nalguns filmes também, como o The Darjeeling Limited.

 

Não deixa de ser irónico, porque também os anos 70 foram revivalistas dos anos 20 e 30, no design de roupa e no cinema. Talvez porque são épocas com traços comuns, como a rebeldia e a liberdade, nas ideias e nos comportamentos. Talvez porque nelas encontraram provavelmente paralelismos estéticos e culturais.

Exemplos de filmes (curiosamente em todos eles entra o Robert Redford): The Way We Were, The Sting e The Great Gatsby.

 

  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:28

Do Tempo das Descobertas: A família no início e fim de tudo

Quinta-feira, 18.02.10

 

De Pedro Correia no Delito de Opinião, esta viagem pelos filmes de 2009 "que valorizam o argumento", "a espessura psicológica das personagens" e as "subtilezas do diálogo". E em que a família surge como "eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também".

 

 

" A família no início e fim de tudo

 

 

A família continua a ser matéria-prima essencial da ficção cinematográfica, como os filmes exibidos entre nós em 2009 bem demonstraram, na linha de uma sólida tradição dramática do cinema clássico. Algumas das melhores longas-metragens que pudemos ver no ano passado tiveram a família como eixo central da narrativa, nas suas diversas facetas e em variados registos, da comédia ao drama. A busca desesperada de uma mãe que perdeu um filho (A Troca, de Clint Eastwood), a insuperável dor do luto (Incendiário, de Sharon Maguire), o desgaste da rotina conjugal (Revolutionary Road, de Sam Mendes), o complexo de Édipo revisitado ao som de partituras clássicas (no incompreendido Tetro, de Francis Ford Coppola). As quatro paredes domésticas como cenário dos mais complexos dramas psicológicos (O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, e Duplo Amor, de James Gray). A cegueira física como metáfora da diluição do amor (Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar). As memórias dolorosas suscitadas por um repasto familiar nesse filme assombroso que é Um Conto de Natal, de Jean-Paul Roussilon). A velhice nostálgica mas ainda sorridente (Almoço de 15 de Agosto, de Gianni di Grigorio). Uma inesperada catarse provocada pelo desamparo da viuvez (no fabuloso Gran Torino, de Clint Eastwood, sem dúvida já uma das obras mais marcantes da década).

 

 

Filmes muito diferentes mas com características comuns. Este é um cinema que valoriza o argumento, que acentua a espessura psicológica das personagens, que sente um especial fascínio pelas subtilezas do diálogo. E é fundamentalmente um cinema de actores, que nos fornece sobretudo um excepcional naipe de interpretações femininas. Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n' A Troca - até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road.

 

A família: eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também.  "

 

 

Imagens:

1. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt, em 'O Casamento de Rachel'

2. Mathieu Amalric e Catherine Deneuve, em 'Um Conto de Natal'

 3. Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, em 'Duplo Amor'

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:38

Coisas simples: os sinais de alarme

Terça-feira, 16.02.10

 

Lembrei-me deste paralelismo entre o percurso de um colectivo e o crescimento, a maturidade individual. 

O percurso de um colectivo é sempre atribulado e implica cortes e rupturas, solavancos e sacudidelas. Há fases de acalmia e de equilíbrio, não necessariamente o equilíbrio desejável, mas o conveniente a quem domina, e nessas fases o poder tenta consolidar a sua influência.

Quando a situação ultrapassa os limites do suportável, há um sinal de alarme. Pode ser apenas um sinalzinho luminoso intermitente, silencioso, mas fica ali a piscar, a piscar.

Como previsto, e o poder é quase sempre previsível, quem domina a situação tenta minimizar aquele sinal de alarme, aquela perturbação é para apagar, quem são os histéricos?, os ignorantes?, os saudosistas?, os ambiciosos?  (1)

E o alarme ali, teimosamente, a piscar.

O poder reage, em todos os locais onde o alarme piscar, lá estarão os apagadores de alarmes a tentar minimizar a luzinha intermitente.

Mas agora até o filósofo, que falara no tempo dos antecessores, nessa outra situação, vem de novo alimentar a luzinha intermitente: já não é só medo de existir, é o não dito e, pior!, o não inscrito. Como argumentar se é tão evidente essa negação constante, essa não-permanência, essa não-continuidade? Esse eterno presente sem passado nem futuro, essa promessa vazia, não-concretizável? E em que o outro não tem razão, a sua opinião não é válida, não existe?

Aqui o poder hesita e resolve lançar a confusão. É nesta fase que nos encontramos, vozes desencontradas, agitadas, agressivas, entrincheiradas. É o clima ideal, adequado, à não reflexão.

Só que o sinal de alarme já é mais luminoso e não se deixa apagar. Não se deixa envolver em agitações de circunstância. Observa e pensa, com a distância emocional necessária para observar correctamente e pensar de forma eficaz.  (2) 

 

 

(1)  Já respondi ali atrás a todas estas críticas ao primeiro sinal de vida do cidadão comum, a petição e a manifestação "Todos pela Liberdade", mas ainda faltava esta da ambição. Aceito. Querem lá ambição maior do que esta, da liberdade? Querem lá ambição maior do que uma democracia de qualidade?, de uma vida colectiva baseada no respeito mútuo e na confiança?, do direito de todos o cidadãos a uma vida livre de condicionalismos insuportáveis, de fracturas sociais, de alterações súbitas de valores e formas de vida, da domesticação sistemática?, do direito a uma vida digna, em que cada cidadão existe para além da sua condição de eleitor e contribuinte, escravo portanto, o que sustenta a máquina e os seus caprichos e aventureirismos? 

(2) É claro que numa comunidade humana, baseada na natureza humana, nem todos os sinais de alarme são motivados pelas melhores razões, as da defesa da qualidade de vida de um colectivo, de uma comunidade, de um país. Mas quando uma comunidade deixar de ter sinais de alarme, a avisar excessos e desvarios, estará perdida.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:16

A agitação jornalística e comentarista

Segunda-feira, 15.02.10

 

O ambiente já se agitou, ele é antenas abertas, fóruns populares, questionários, se quiser Pedro Passos Coelho ligue o número, ouço a voz ofegante da apresentadora... e a repetição da opinião do oráculo de domingo, que não avança e que neste momento só confunde e empata.

E não é só o oráculo a confundir e a empatar, são os jornalistas e os comentadores de serviço, onde é que eu já vi isto?, e tudo isto porquê?

Eu explico: Paulo Rangel teve a ousadia de se candidatar à liferança do PSD.

É por isso que ouço esta frase foleira a uma jornalista, onde nem aqueceu o lugar... Isto é frase que se diga? Céus!

 

Bem, vamos todos é respirar fundo e observar de forma distanciada. Para isso temos de baixar o som da televisão e do rádio sempre que se aproximar algum jornalista agitado ou comentador efervescente.

 

Primeiro ponto: onde é que a candidatura de Paulo Rangel é semelhante à de Aguiar Branco?

Segundo ponto: Já constatei que a candidatura de Passos Coelho é a preferida da generalidade dos jornalistas e dos comentadores de serviço.

Terceiro ponto: Também alguma coisa me diz, mas é só uma intuição, que Paulo Rangel é o preferido dos potenciais eleitores do PSD.

Quarto ponto: Se o oráculo gostava assim tanto de se candidatar, e se os eleitores o preferiam cono nos diz uma jornalista baseada não sei em quê, porque não avança?

Quinto ponto: A primeira coisa que se perdeu nestes anos mais recentes foi a educação básica, o respeito pelo outro nosso semelhante. A segunda, foi a capacidade de observar e reflectir, pela sua própria cabeça, e falar na sua vez. E tudo isto alimentado nas televisões e nos diversos programas de comentário político.

 

As três candidaturas têm o seu espaço e o seu grupo de afinidades no PSD e não se cruzam neste momento.

Pedir a um qualquer candidato que se afaste? A que propósito?

São filosofias de base diferentes, posturas diferentes, estilos diferentes, e perfis completamente diferentes.

Então há uns tempos que não havia ninguém no PSD, agora queixam-se por haver a mais? Decidam-se.

 

A minha opinião pessoal? Sim, adivinharam: Paulo Rangel.

O perfil adequado para uma liderança inteligente, dinâmica, com um propósito claro e bem definido, e que mobiliza vontades.

Mais do que consensos que só dão lugar à existência dos empatas de serviço, é preciso clarificar as posições e os objectivos, o que se quer para o PSD e para o país.

 

Quanto à agitação dos jornalistas e dos comentadores televisivos e radiofónicos, é só uma questão de não os levar muito a sério. Nada de fidedigno nasce da agitação. O que vale a pena nasce sempre da reflexão. Mas, claro!, tudo isto faz parte de uma sociedade em que tudo é tratado como um produto de consumo, em que não há valores ou referências acima de audiências e de outros interesses situacionistas.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:32

Coisas simples: as emoções

Sábado, 13.02.10

 

Que semana esta! Como é possível que uma pessoa como eu, que já passou há muito a fase da idade impressionável, ainda se deixe envolver pela emoção e entusiasmo, só por causa de um primeiro sinal de vida do cidadão comum, por exemplo?

 

Mas foi mesmo assim. Outras novidades entretanto me emocionaram, por razões diferentes, mas aquele primeiro sinal de vida foi o que me pôs o coração a bater mais depressa e a meter-me a caminho.

 

Se esta iniciativa alterou alguma coisa? Se teve algum impacto? Ainda é cedo para o dizer.

Mas no plano simbólico foi significativa. É um primeiro sinal de vida. De uma sociedade civil que já se dava como amorfa, indiferente, em estado comatoso.

 

Se as opiniões pós-manifestação me impressionaram ou incomodaram? Não, mas deixaram-me perplexa. O que é que os críticos da manifestação entendem por liberdade? A mim não me incomoda nada quem não esteve lá. São tão livres de não estar como eu de estar.

Quanto aos comentários deselegantes e até grosseiros, porque a ironia inteligente não é o seu forte, também não me incomodam nada, a não ser as emoções que revelam, esse subterrâneo de agressividade que os caracteriza: ódio e raiva, por exemplo, são emoções que me desagradam, confesso. 

 

Quanto ao trabalho jornalístico, uma desgraça. No "Público" o texto refere mais de 100 pessoas mas na fotografia aparece apenas uma: um senhor segura um cartaz e por trás vemos a escadaria, a Assembleia e um triângulo de céu azul. Bonito! Quem não passou em frente do grupo, isto é, a maior parte dos leitores do "Público", ficou com a ideia, erradíssima, da geração da maioria dos participantes da manifestação, por exemplo. E esse seria o dado essencial da manifestação. Pois é, falharam no essencial: a maioria dos participantes pertence às gerações pós-revolução de 74. Eu apontaria mesmo para uns 80%, os manifestantes nascidos nos anos 70 e 80. Isto já diz muito do significado da manifestação. Uns 15%, das gerações que eram crianças ou adolescentes (o meu caso) na revolução de 74. E os tais 5% da geração representada pelo senhor da fotografia. Que rico jornalismo o do "Público"! 

 

Aqui também se iniciou um novo conceito de manifestação: deixa de ser a pose ou o slogan, para ser um encontro descontraído de pessoas que partilham uma ideia e uma mensagem. Essa ideia e essa mensagem é transmitida através de uma petição que é entregue no local adequado.

A presença das pessoas ganha outro significado: estão lá, sabem porque estão lá, e isso lhes basta. No final, a promotora da petição agradece a presença de todos e batem-se palmas.

Esta cultura do encontro, numa ideia e numa mensagem que une um grupo heterogéneo de pessoas, esta cultura da amabilidade e do respeito pelas diversidades, é uma lufada de ar fresco para quem viveu numa cultura de autêntica divisão por subgrupos, essa pressão insuportável e medíocre de ideias feitas e de preconceitos.

Esta cultura do respeito e da amabilidade na diversidade é a adequada numa democracia de qualidade.

 

Penso ter apontado o essencial desta petição e desta manifestação: há aqui um salto cultural e geracional. É esse, a meu ver, o seu primeiro significado.

Nasce nos blogues e no twitter (o que me agrada pensar que o José Manuel Fernandes faz muitos mais estragos à cultura da seita das pressões, no twitter, do que fazia no "Público"!), nesse espaço de liberdade, num universo paralelo ao dos jornais e das televisões, onde a liberdade está cada vez mais ausente.

Outro significado: não há qualquer hipótese hoje em dia de manter esta cultura da mediocridade. Pode levar mais tempo do que desejaríamos, mas este é o primeiro sinal desse salto cultural e geracional, queiram ou não admiti-lo.   

 

Recentemente um amigo, numa conversa animada sobre séries de televisão, ao ver quais as minhas preferidas, referiu de forma certeira: Gostas de ver resultados rápidos.

É verdade, nunca apreciei séries como os Perdidos, que ele acompanha desde o início, por exemplo.

O nosso Alan Shore (Boston Legal) resolve os casos em tribunal e ficamos logo a saber o veredicto. Mesmo na série Flashforward vamos tendo alguma informação que nos permite ir compondo o puzzle final. E agora, na Lie to Meos resultados estão logo à vista, na observação científica das reacções faciais e corporais das pessoas. Vale a pena ver. A sério! Já aprendi uma ou duas reacções que revelam a mentira, por exemplo. É muito útil. Também já consigo identificar o ódio, a raiva, o desprezo, apenas pela expressão facial.

 

Bem, sobrevivi a esta semana e é isso que importa.

 


Correcção estatística: Depois de ver alguns vídeos da manifestação, talvez deva corrigir aqui as minhas primeiras estatísticas. Embora não se trate de nenhum estudo sociológico, gosto de analisar os fenómenos e aqui a representação por gerações tem um significado para mim.

Assim, talvez a minha geração e a imediatamente posterior, isto é, as que eram crianças e adolescentes na revolução de 74, estejam melhor representadas do que inicialmente contabilizei: em vez dos 15%, aí uns 30%. Mas ainda assim, as gerações pós-revolução de Abril são as que compareceram em maior número.

A meu ver, a distinção direita-esquerda é secundária. Porquê? Porque ninguém tem o monopólio do respeito pela liberdade. Essa consciência é individual, não é colectiva. Começa em cada indivíduo. Isso é que determina como se vai comportar no colectivo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:12


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